Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

CUIDADO: QUEREM CONSTRUIR GUANASSANTOSPAULO, A MEGALÓPOLIS

Jeronymo_3 meses seculo 81 baixaJeronymo Monteiro (Panorama) meio desiludido da cidade grande, trocou São Paulo por uma pacata cidadezinha praiana e passou a viver em Mongaguá, onde, entre livros de ficção científica (é pioneiro no Brasil nesse tipo de literatura) ele foge deste mundo vivendo entre as orquídeas que planta com muita dedicação.
Ao saber que já se planeja uma imensa cidade abrangendo as áreas de São Paulo, Santos e Guanabara, Jeronymo Monteiro prevê como será essa Megalópolis do século XXII.

Uma cidade com 500 quilômetros de diâmetro. Uma coisa para um filme de Vadim. Edifícios de 150 andares (ou mais) verdadeiras colmeias cheias de alvéolos. Em cada alvéolo, uma família (família, que é isso?) tentando fingir que agora sim, agora sim…

Uma das paredes do alvéolo é, toda ela, vídeo de TV, porque a TV se tornou vademecum da vida diária, o manual de informações, instruções, normas de conduta. Além das telenovelas em que o bem sempre vence o mal, além das reportagens esportivas, há toda a programação, dirigida, sugerindo aos telespectadores como devem andar, fazer, pensar, colaborar, pagar, pagar, pagar… E o que comprar, que sabão usar, que automóvel preferir, que livros ler, que artistas aplaudir. Porque é preciso livrar o povo do exaustivo trabalho de pensar e resolver! Já está tudo pensado e resolvido.

Nos trabalhos domésticos não há nenhum problema. Ele e ela não têm com que se preocupar. A hora da limpeza matinal complicado aparelhamento eletrônico cuida de tudo. Na hora da refeição aperta-se um botão e a mesa com seus assentos, surge da parede. Outros botões, e a comida surge automaticamente: rações balanceadas, perfeitas: Tipo A para diretores executivos; Tipo B para assessores e secretários; Tipo C para trabalhadores especializados; Tipo D para funcionários comuns. Os trabalhadores são todos especializados, técnicos: sua função é vigiar o funcionamento dos dispositivos que fazem funcionar as usinas automatizadas.

Nenhuma complicação nem preocupação. Chegada a hora, o relógio-falante grita em todas as dependências da casa: sala, quarto, cozinha e banheiro:

— Querido cidadão está na hora. Não perca a sua condução. Faltam 5 minutos… nutos…tos…tos…tos…”

Cidadão e cidadã correm para o elevador que os leva ao terraço do megaedifício. Os helitaxis e heliônibus públicos ali estão, alinhados, esperando. Entram. Cada um marca no painel o destino para que vão. O aparelho levanta vôo e sai, desesperadamente, porém entre as nuvens rassando os terraços dos megaloedifícios de onde outros helitaxis exatamente iguais estão decolando, como enxames de imensos vespões reluzentes, tudo ordenado, tudo direitinho. Nenhum perigo de colisão nem congestionamento. Para cada zona da megalópoles, uma rota de altitude, um canal exclusivo. É que o homem é muito precioso. É preciso protegê-lo, conservá-lo em bom estado – porque ele precisa produzir e acima de tudo, consumir, comprar, comprar, já que a Megalópolis exige, para funcionamento perfeito de seu complexo sistema, arrecadações superiores a 512 cruzeiros megalonovos. Escadas rolantes, calçadas rolantes, esteiras rolantes, pontes rolantes super e subfluviais, viadutos de 50 quilômetros e mais, em curva, em espiral, unindo os megaloedifícios uns aos outros. Mecanismos eletrônicos que reagem à presença de qualquer cisco nos pavimentos, recolhendo-o imediatamente. Máquinas automáticas de distribuição de alimentos concentrados, bebidas tranquilizantes…

Cada cidadão chega ao seu local de trabalho, salta rapidamente no terraço do megaloedifício onde funciona. Durante a confortável viagem, o telejornal desfilou no vídeo do helitaxi ou do heliônibus contando aos passageiros tudo o que eles devem e precisam saber. No terraço, o cidadão dirige-se para uma das cabinas do tubo condutor, entra pelo tubo e, por sistema de antigravidade, desce e é suavemente depositado na cabina que dá para a sua sala de trabalho. Vai para a sua cadeira, senta-se. A cadeira acomoda-se amorosamente ao seu corpo e os braços da mesma enlaçam-no amigavelmente, como cinto de segurança: só se abrirão de novo ao fim do expediente, quando tudo vai recomeçar, no sentido inverso.

Milhões de olhinhos verdes, azuis, vermelhos, piscam nos grandes painéis das paredes, diante da fila de cadeiras onde outros cidadãos se vão sentando. Estão todos vestidos de maneira igual, sapatos iguais, gravatas iguais. (É tudo fornecido pelos fornecedores automáticos de utilidades domésticas.) Todos fumam os mesmos cigarros sem nicotina, sem alcatrão, sem tabaco e sem fumaça.

Passa o cidadão suas horas de trabalho levantando e abaixando alavancas, de acordo com o mapa de instruções que tem à sua frente. Aperta botões, calça pedais. Quando soa a hora da saída, suavemente cantada pelo relógio-falante, os braços da cadeira abrem-se, o cidadão corre para a cabina, entra de novo pelo tubo e chega ao terraço, onde o helitaxi o espera.

Mas não vai para casa. Vai para o Salão Coletivo de Arte, ou para o Auditório Coletivo de Música ou Conferências. Porque é preciso distrair o espírito, enriquecê-lo, arejá-lo, mantê-lo sempre na linha escolhida como a melhor para a felicidade de cada um, conforme os dirigentes e as máquinas eletrônicas verificaram e decidiram.

O cidadão que estamos seguindo está no seu dia de Música. Em poucos minutos é deixado no terraço, desce pelo tubo e chega ao megasalão onde exatamente 50.000 pessoas se encontrarão logo disciplinadamente sentadas. Grandes letras luminosas acendem e apagam nas paredes: “Silêncio”, “Respeite o Templo da Arte.”, “Não fale”, “Não perturbe seu vizinho”.

Ouvir-se-ia uma mosca zumbindo se houvesse moscas.

Depois o cartaz falado anuncia:

— Hoje os felizes cidadãos de Megalopolis Guanassantospaulo ouvirão o grande concerto transinfônico Opus 2.345 do IBM.635-H-32 – Execução pela super-orquestra transinfônica compacta, organoeletrônica do Setor P-h-635 – 42 de Guanassantospaulo.

Todos os cidadãos vibram de satisfação condicionada. E a Voz conclama:

— Não se agitem. Esperem instruções”.

Todos quietinhos. Pouco depois a Voz retorna:

— Façam uso, agora, das pílulas megaloeufóricas que se encontram nos braços de suas poltronas.

Cinquenta mil mãos, em movimento sincrônico, abrem a tampa da caixinha, extraem 50,000 pílulas, cor-de-rosa que são metidas em 50.000 bocas.

A Voz torna, mansa:

— Recostem a cabeça. Fechem os olhos. 50.000 cabeças recostam. 100.000 olhos se fecham.

Nascem suavemente os sons, de todos os cantos. É o Concerto que começa. Prossegue. Cresce. Enche a sala. Enche o universo. Decresce. Suaviza-se. Morre num suspiro. A Voz sussurra:

— Fim do Concerto.

E cresce subitamente:

— Viva Guanassantospaulo! Viva a Megalopolis do século vinte e dois.

— Vivaaaaaa! — gritam 50.000 vozes.

E começa a retirada, ordeira, tranquila, silenciosa, em direção aos tubos, para a volta aos terraços, aos helitaxis e helionibus. Para a volta ao lar…

No mesmo momento, de outros 200 Templos de Artes semelhantes, dedicados à escultura, à pintura, ao desenho, às conferências, ao cinema – estão saindo dez milhões de pessoas, de volta aos terraços, aos seus lares, às suas rações concentradas…

Jeronymo Monteiro
Folha de São Paulo
25 de janeiro de 1969, Ano XLVIII, nº 14.468.

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Informação

Publicado em 19 de agosto de 2015 por em Ficção Científica, Jornalismo, Sem categoria.
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