Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

O CONTO FANTÁSTICO

O Conto Fantastico_capa

Jeronymo Monteiro fez a seleção, prefácio e notas da antologia O Conto Fantástico, volume 8 da série “Panorama do Conto Brasileiro”, pela Editora Civilização Brasileira (atualmente parte do Grupo Editorial Record).

Lançada em 1959, é a primeira antologia de literatura fantástica que recolhe unicamente contos brasileiros. A primeira antologia de contos brasileiros foi “Contos Brasileiros” coligidos em 1920,  por Alberto de Oliveira e Jorge Jobim, na Coleção “Aurea” da Editora Garnier.

O Conto Fantástico apresenta vinte e seis contos de autores brasileiros do século XIX e da primeira metade do século XX.

A capa é de Nora Ronai, arquiteta, escritora e atleta de natação brasileira, casada com o filólogo, tradutor e escritor Paulo Ronai.

Na orelha do livro temos o seguinte texto:

O fantástico, em literatura preocupou sempre os grandes escritores, seduzidos pelo maravilhoso a que os podia levar a imaginação, percorrendo arrebatada e livre, zonas desconhecidas e completamente afastadas daquelas em que se passa e vive a existência de todos os dias.

As letras alemãs, inglesas, francesas, tem, a cultivar o gênero, alguns dos seus nomes mais representativos como Hoffmann, Somerset Maugham, Mérimée. E no Brasil não seria de todo destituído de verdade, se se dissesse que o gênero conto teve início, no século passado, com as histórias fantásticas de Álvares de Azevedo, nas Noites na Taberna. Daí por diante, a literatura fantástica incorporou-se à nossa ficção, dando a alguns dos nossos melhores escritores oportunidade de criarem verdadeiras obras-primas do gênero.

E raros foram os prosadores nacionais que não excursionaram pelo fantástico, compondo uma ou mais histórias desse tipo. Monteiro Lobato, por exemplo, tão objetivo em suas preocupações de homem e de artista, escreveu não um conto, mas todo um romance fantástico, o seu único romance – O Choque. E também Gastão Cruis, em sua Amazonia Misteriosa, ou Menotti Del Picchia, em A Filha do Inca.

Nesta seleção do que melhor se escreveu no gênero, entre nós, os leitores verão como tem sido constante e fiel a preocupação dos nossos escritores por literatura tão sedutora e ao mesmo tempo tão difícil. De Álvaro de Azevedo, nos tempos do Romantismo, passando por Aluízio Azevedo e Afonso Arinos na época do Realismo, detendo-se pouco depois em nomes como os de Lima Barreto, Viriato Correa ou Thomaz Lopes, para chegar ao Modernismo com um escritor da categoria de Aníbal Machado e daí até os mais recentes como um Orígenes Lessa ou um Josué Montello, poder-se-á percorrer, através destas páginas, uma estrada curiosa e diferente, porque seres e paisagens, casas e ambientes, tudo é novo. Como os escritores, que nessas histórias se entregaram apaixonadamente à sua fantasia, também os leitores podem e devem entregar-se à emoção, sempre nova e excitante, que proporciona a leitura de contos e entrechos tão fantásticos e maravilhosos como os que foram reunidos neste volume.

Abaixo a lista dos contos publicados:

1.“Assombramento – História do Sertão” (Afonso Arinos)
2.“Delírio” (Afonso Schmidt)
3.“Solfieri” (Álvares de Azevedo)
4.“O Impenitente” (Aluízio Azevedo)
5.“O Telegrama de Artaxerxes” (Aníbal M. Machado)
6. “Um Esqueleto” (Machado de Assis)
7.“Os Donos da Caveira” (Ernâni Fornári)
8.“Sertório” (Galdino Fernandes Pinheiro)
9.“Noturno n.o 13” (Gastão Cruls)
10.“Confirmação” (Gonzaga Duque)
11.“Paulo” (Graciliano Ramos)
12.“O Duplo” (Coelho Neto)
13.“Os Olhos que Comiam Carne” (Humberto de Campos)
14.“O Baile do Judeu” (Inglês de Souza)
15.“O Sino da Soledade” (Josué Montello)
16.“Sua Excelência” (Lima Barreto)
17.“Maria Bambá” (Luiz Canabrava)
18.“De Além-túmulo” (Magalhães de Azeredo)
19.“O Soldado Jacob” (Medeiros e Albuquerque)
20.“A Gargalhada” (Orígenes Lessa)
21.“ O Lobisomem” (Raymundo Magalhães)
22.“Papai Noel e o Outro” (Ribeiro Couto)
23.“O Defunto” (Thomaz Lopes)
24.“ Os Curiangos” (Valdomiro Silveira)
25.“A Cadeira” (Veiga Miranda)
26.“A Rita do Vigário” (Viriato Corrêa)

 

PREFÁCIO

Uma antologia de contos fantásticos brasileiros…

Agora que esses contos aí estão, tudo ficou fácil. Mas, reuni-los…

A verdade é que não tínhamos noção exata da escassez de contos desse gênero em nossa literatura. Quando surgiu a idéia da antologia, a impressão era de haver fartura de material, pois que se trata de gênero muito do agrado do povo esse que enfeixa as histórias fantásticas, de aparições, de mistérios, de almas penadas…

Parecia-nos ter lido, através do tempo, muita coisa assim. Diante das dificuldades encontradas, porém, verificamos que o que se lê em nossa terra, desse gênero, é literatura traduzida, especialmente do inglês. Os ingleses é que se pelam por casas mal-assombradas e os autores fornecem, por meio da literatura, o que não se encontra com frequência na realidade. Entre nós parece que se dá o contrário: há muitas lendas, superstições e assombrações por esse sertão, e há pouco quem se aproveite do tema para escrever.

Só percebemos bem essa dificuldade quando estávamos em meio do trabalho e, então, já não podíamos recuar. Continuamos, pois, lendo livros novos, velhos e antigos, na busca do maravilhoso esquivo.

Afinal, o volume aí está. Incluímos nele um conto de nossa autoria, não porque o julguemos antológico, mas porque o material era escasso e o próprio editor, cujo conhecimento e cultura respeitamos, aconselhou que o fizéssemos.

Dos “Contos Amazônicos”, de Inglês de Sousa, escolhemos o “Baile do Judeu”. Talvez não seja o mais fantástico do excelente volume, onde todos os contos são ótimos, mas lá está o boto – e o boto é uma das nossas alusões mais típicas do Amazonas e tão enraizada na crença popular que até hoje atua sobre a vida dos cândidos moradores daqueles sítios.

Incluímos ainda, neste volume, trabalhos como “Papai Noel e o outro”, de Ribeiro Couto, que talvez nem todos considerem fantástico. Mas é.

Não conversa, ai, o personagem principal com o “Vovô Índio”? Trata-se, além disso, de saborosa crítica à febre que andou por aqui de se substituir o velho Papai Noel por um outro Papai Noel nacional, de tanga e sem barbas, o que, afinal, estaria mais concorde com a nossa situação. “Sua Excelência”, de Lima Barreto, está, também, nesse caso.

Enquanto colhíamos o material para esta antologia, pensávamos que os autores nacionais podiam dedicar um pouco do seu tempo a este gênero, tão do gosto popular. Por que não o farão?

Uniformizamos a ortografia de todos os trabalhos, para evitar confusões no espírito do leitor.

Escusamo-nos de fazer nota crítica de cada autor, limitando-nos a resumidas notas biobibliográficas de sentido apenas informativo.

Colocamos os autores em ordem alfabética, para fugir a qualquer preferência, que fica a cargo do leitor.

Queremos deixar expresso o nosso agradecimento a Edgard Cavalheiro e Fernando Góis pelo auxílio prestado. Não podemos esquecer, também, desse fidalgo livreiro-antiquário Olinto de Moura, que não escondeu à nossa insaciedade as preciosidades que possui. Agradecemos, ainda, a minha filha Therezinha, que muito nos auxiliou na conferência e revisão dos originais.

J.M.
São Paulo, 1/8/1956

_________________
Jeronymo Monteiro (org.)
O conto fantástico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Panorama do Conto Brasileiro, vol. 8, 1959.

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Informação

Publicado em 6 de dezembro de 2015 por em Ficção Científica.
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