Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

LOBATO QUERIA MORRER

Gazeta Juvenil 21 agosto 1948 baixaUma noite – alguns dias depois, ele já não existiria – estávamos no apartamento de Monteiro Lobato. Ele metido no pijama, por sobre o qual vestia um “robe-de-chambre” cinzento, estava sentado na sua poltrona, sob o grande abajur, perto do radio. Seu rosto estava macilento, mas o sorriso com que Lobato sempre zombou dos homens e das coisas – brincava em seus lábios. Lobato sempre me recebia com a mesma frase:

— Deus do Céu! Mas como você está gordo!

Isto era uma pequena infâmia do grande homem. Eu nunca fui gordo demais, e agora o estou menos que sempre. Mas para Lobato, eu estava sempre assustadoramente gordo. Depois continuava:

— Então? Já enriqueceu com os seus livros?

E a minha resposta negativa:

— Mas isso é um crime! Você já devia estar rico! Riquíssimo!

— Pois é. Eu devia, mas não estou.

Lobato era, antes de tudo, um “blagueur”. Um terrível “blagueur”. Gente grande, com ele, era ali, na pura piada. Caçoava de tudo. Especialmente dos homens que se meteram a traçar os destinos do Brasil. Caçoava dos homens e ficava triste pelo Brasil. Pobre Brasil, que não tem culpa…

Lobato só levava a sério as crianças. Estas sim, tinham dele o coração, o cérebro, a vitalidade, tudo! Seres pequenos, que ainda não tinham aprendido a ser “golpistas”, cínicos, aproveitadores, exploradores de seus semelhantes – esses tinham em Monteiro Lobato um amigo verdadeiro, sem “blagues”, sem nada.

O Lobato-Lobato. No resto, ele desancava o pau. E o bonito é que muita gente grande não compreendia o espírito, o desdém, o “não-ligo” do Lobato. Nem o compreenderão tão cedo. A gente grande tem tanto que fazer!…

Mas naquela noite, como, aliás, em noites anteriores, Lobato disse, a certa altura:

— Sabe Jeronymo? O que eu quero mesmo é morrer. Estou farto de tudo! Farto dos homens, farto da mentira universal, farto dos pedintes, porque, meu caro, no Brasil só há pedintes. Todos pedem alguma coisa! Eu quero é morrer. Nada mais tenho que fazer aqui…

Isto não era “blague”, não. Lobato sentia-o profundamente. Já dissera o mesmo outras vezes. Lobato queria mesmo morrer. Algum tempo antes, quando sofrera o primeiro “derrame”, depois de voltar a si, Lobato me dizia:

— Veja como são malvados…Eu já tinha passado para o “lado de lá”. Estava descansado, tranquilo, livre “disto”. E os malvados chamam médicos, fazem o diabo para me voltar… E aqui estou de novo…Para que?

No princípio, pensei que fosse “blague” também. Mas depois vi que não era. O desejo que Lobato sentia de morrer era um desejo honesto. Realizou-o, afinal. Por isso, não fiquei triste com a sua morte.

Acompanhei seu corpo ao cemitério, como todo mundo fez, mas sem tristeza. O que era bom para Lobato era bom para mim.

Agora, nada mais se pode fazer. Lobato morreu. O Brasil perdeu o seu maior homem e as crianças perderam o seu maior amigo. Mas a sua literatura ficou. Será futuramente, o modelo para toda a literatura infantil do mundo, porque ele criou algo maior, melhor, mais perfeito, mais saboroso do que todos os escritores infantis do mundo até agora. Andersen, Lewis Carol, Swift, Grimm… Todos, todos os que eram considerados grandes, desaparecem ante o vulto imenso de Lobato. O mundo inteiro reconhecerá isso um dia. Deixem passar apenas o tempo necessário. O maior homem do Brasil. Um dos maiores do mundo! Era o nosso Lobato!

JERONYMO MONTEIRO
A Gazeta Juvenil, nº
12 de agosto de 1948, pág. 26

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Publicado em 10 de dezembro de 2015 por em Sem categoria.
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