Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

O FUTURO VISTO DO BRASIL

melhores-contos-FCAté pouco tempo atrás poucos gêneros no mercado editorial brasileiro tinham mais pinta de “primo pobre” do que a ficção científica, tratada como uma curiosidade para aficionados e pouco contemplada pela crítica especializada – ao contrário do romance policial, que costuma ser esnobado pela crítica mas pelo menos é sucesso de público. Pois essa é uma das principais surpresas que a coletânea Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras reserva ao assim chamado “grande público”: a noção de que no Brasil não só se produz ficção científica como o gênero conta até com uma rala, ainda que sólida, tradição.

O volume, que reúne histórias de 14 autores, vem dar continuidade à coletânea Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica,publicada em 2007 pela mesma editora Devir e organizada pelo mesmo Roberto de Sousa Causo que assina a seleção deste volume. O subtítulo Fronteiras, embora aparentemente vago em excesso, fica claro no ensaio com o qual Causo justifica a escolha dos textos compilados na coletânea: a maioria pertence a um híbrido “fronteiriço” entre a ficção científica mais estrita e outros gêneros, tanto da literatura de massa quanto da assim considerada “literatura artística”. Algo que se reflete no grupo de autores selecionados.

Dois nomes da literatura canônica nacional comparecem com histórias que cruzam a ficção científica com a fábula moral. Lima Barreto com A Nova Califórnia, na qual o elemento de ficção científica fica por conta mais da chegada de um alquimista a uma pequena cidade brasileira do que particularmente por algum elemento científico incluído no enredo. O mesmo se dá com o clássico conto Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles, um relato mais próximo da alegoria do que da ficção científica, no qual a autora aproveita a trama de um núcleo de burocratas preocupado com um plano de extermínio de ratos para tratar, com a devida chave de leitura, da ditadura militar vigente quando a história foi publicada pela primeira vez (em 1977).

Nos dois casos, o que se tem são autores que aproveitaram-se em maior ou menor medida de alguns tons de fantasia mas que transcenderam os limites do gênero – um expediente bastante comum na literatura, é só olhar a produção de Ignácio de Loyola Brandão ou Rubem Fonseca, no Brasil, ou as maravilhas que Borges produzia com a estrutura de histórias de espionagem ou de fábulas orientais.

O livro, contudo, também apresenta nomes seminais da ficção científica em língua portuguesa, cultores do gênero hoje lembrados apenas por um restrito número de apreciadores, ainda que suas obras com motivos fantásticos ou científicos sejam contos de fina qualidade. É o caso de Jerônymo Monteiro (1908 – 1970), pioneiro da literatura de gênero no país; Monteiro está no livro com Um Braço na Quarta Dimensão, uma história que casa perfeitamente o tom fantástico característico de um conto de ficção científica com a chamada “cor local” da realidade brasileira (menos presente do que seria de se esperar na coletânea). Na cidade litorânea de Monguagá, o narrador conhece um pescador rude que detém, por circunstâncias inexplicáveis, o dom – ou a maldição – de se teletransportar em momentos de extremo perigo, embora não controle a habilidade.

A leitura do livro permite também perceber a evolução dos temas que inquietam autores de gênero ao longo do tempo – e poucos gêneros são tão umbilicalmente ligados ao tempo em que foram produzidos. Outro dos grandes da literatura fantástica nacional, André Carneiro está no livro com O Homem que Hipnotizava, um conto de 1963 que, com o pretexto do hipnotismo, aborda na verdade a crescente angústia existencial que levaria à apatia e ao escapismo contemporâneo: um homem aprende a hipnotizar a si próprio e passa a enxergar o mundo em tons ideais. Logo torna-se um dependente da sugestão hipnótica para poder enfrentar a feia realidade que o cerca. Já Domingos Carvalho da Silva (1915 – 2003) investe no recorrente tema do futuro distópico e autoritário com A Sociedade Secreta, no qual um grupo de velhos, vivendo em uma comunidade impessoal, rigidamente controlada e com padrões doentios de moral e assepsia, são os únicos a lembrar dos sujos e livres dias anteriores à tirania científica.

São dois contos nos quais a ficção científica estrita está a serviço de um comentário abrangente que extrapola os limites de gênero e ganha a grande literatura. Talvez o melhor exemplo dessa operação reunido na coletânea esteja na pérola de narrativa curta Mestres-de-Armas, uma crítica ferina ao militarismo que narra a formação de uma unidade de soldados responsáveis por sustentar a contínua expansão da humanidade no futuro. O autor, Bráulio Tavares, é um dos grandes nomes da ficção científica em atividade no Brasil.

Sim. O Brasil tem grandes nomes de ficção científica em atividade. O que talvez eles precisem seja de leitores.
>> ZERO HORA – por Carlos André

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Publicado em 16 de dezembro de 2015 por em Ficção Científica.
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