Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

O CONTO BRASILEIRO: UM CASO DE AMOR ANTIGO

FON FON 34 -1930Por coincidência começara a soar meia-noite quando dei a última demão em meu trabalho.

Meti-me no leito e abri um livro de Júlio Dantas para repousar na sua prosa amena antes de adormecer, quando meus ouvidos foram feridos pelos sons aflitivos de um choro de mulher.

Levantei-me e abri a janela.

A noite estava calma e formosa. A lua em seu quarto crescente, mal iluminava a estrada e os campos vizinhos, e as estrelas brilhavam esplendorosamente no céu profundo.

O choro continuava. Devia vir de uma das casas próximas, mas não me foi possível precisar de qual.

— Por momentos, estive a ouvir. Na solidão ambiente, aquele choro tomava proporções alarmantes e fazia-me mal aos nervos.

Sentia-me penetrar de uma aflição crescente.

Que sucedera à pobre criatura que tanta tristeza espalhava na noite bela?

Mas logo, o som foi morrendo e, dentro em pouco, não o ouvi mais.

Voltei ao leito. Tomei o livro e novamente me pus a ler, forçando o espírito a abandonar a tristeza de que se tomara.

Mas o silêncio durou pouco. Outra vez os soluços ecoaram.

Larguei o livro, apaguei a luz e procurei adormecer.

Custou-me muito. Não sei que horas seriam quando o consegui.

***

No dia seguinte, foi a minha encantadora vizinha quem me deu as primeiras informações sobre o pranto da noite:

— Foi a Amélia que morreu. Era a mãe dela que chorava…

— A Améllia?…

— Sim. Aquela mocinha morava na casa avarandada.

— Ah!

O meu “ah!” foi vago, porque não me recordava bem dessa moça.

Parece-me que a vi algumas vezes sentada à varanda da sua casa, em frente à lagoa que rebrilha lá em baixo, no vale.

Quero crer que, quando a vi, tive a impressão de que era uma criatura triste. Estou certo de que era magra e pálida.

Achei natural que uma criatura triste, magra e pálida viesse a falecer. Mesmo os que o não são morrem…

Mas só compreendi o alcance dramático da sua morte, quando me relataram, circunstanciadamente a vida que essa infeliz levara.

A sua morte revestia-se dum caráter estranho e a vida que se extinguira encerrava uma dolorosa história. Uma história que não é do nosso tempo. A história de um amor romântico e que, fatalmente, encontraria desfecho no drama que a cortou.

***

Amélia era noiva, e o seu noivado era mais do que isso: era uma religião de fervor apaixonado.

A Fernando, o que lhe faltava em saúde, sobrava-lhe em amor.

Redimia-se da pequenez de suas forças pela grandiosidade do afeto que seu coração sabia sentir.

Adoravam-se.

Nos tempos que correm, utilitários como o que de mais utilitário há sob o sol, creio que não me apontarão duas paixões como essa.

É pouco possível, e todos acharão pouco aceitável que duas criaturas se dediquem tão completamente uma à outra, que vivam tão exclusivamente para si mesmas e para o seu amor, como esse par inverossímil.

Quem os visse em certas ocasiões de contemplação mútua, diria ter pela frente um casal de mudos que o destino, piedoso, reunira para que se olvidassem na desgraça e se sublimassem no afeto.

E era ao contrário. Falavam.

Mas, para que os sons? Para que as vibrações do ar, se tinham os olhos?

Os olhos, esse maravilhoso veículo das emoções mais íntimas, de que os enamorados de todos os tempos se tem servido, com mais felicidade do que com todas as imperfeitas linguagens para as suas conversações mais puras, mais perfeitas, mais ideais, mais comovedoras?

Às vezes desciam do divino: falavam a linguagem dos homens…

Então, as palavras de um nos ouvidos do outro tomavam formas encantadoras de poemas maravilhosos, nunca ditos nem ouvidos…

Era a sublimação perfeita da ternura humana.

Talvez fosse — quem sabe? — a manifestação mórbida de dois corações imperfeitos, incapazes de vibrar a outro sentimento que não fosse esse do amor ideal.

Assim ficavam horas esquecidas à varanda, sob o céu puro e profundo, empoeirado de estrelas.

Nunca os vi nessa adoração mútua, onde eram os dois, ao mesmo tempo, deus e devoto, mas imagino o que ela seria, e acho-a extraordinária.

E era-o, de fato, pois que, como tudo o que é extraordinário, fora do comum, deslocado do seu tempo e do seu meio, teve um fim doloroso.

Um dia, que seria para um deles de funesta memória, esse amor teve o seu fio de luz, bruscamente, impiedosamente, partido pelo Destino cego.

A morte ceifou a vida de Fernando e preparou para Amélia um porvir negro como esse céu que os abrigara, e condensado, também, de fogueiras de dor e desespero…

Amélia tornou-se uma inconsolável e, em pouco tempo, irreconhecível.

Aquelas fogueiras foram fazendo devastações irreparáveis no seu organismo fraco.

Passava, sempre que o conseguia, as noites naquela varanda em que outrora, gozara o seu amor ideal e ali ficava a carpirso, num inenarrável desconsolo, numa imensa solidão, numa infinita saudade.

Sua mãe, de lá a arrancava a força, mas, alta noite, pé ante pé, ela voltava.

O ar frio, com afagos traiçoeiros e carícias fatais, ia-lhe ouvindo o choro abafado e convulso.

Já nos últimos tempos era uma sombra, sem forças para se lamentar, sem lágrimas, sem soluços, quase sem alento…

Ontem, de manhã, encontraram-na hirta, gelada, estendida no azulejo da varanda, a fitar com os olhos muito abertos, muito baços, metidos na face magra, pálida, sem expressão, esse céu confidente e profundo que, com a mesma impassividade, ouvira os seus poemas de amor e a derradeira elegia do seu desespero…

Jeronymo Monteiro
O Conto Brasileiro
Revista Fon Fon, nº 34 – Ano XXIV.
Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1930, pág 03.

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Publicado em 30 de dezembro de 2015 por em Sem categoria.
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