Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

ENTRE O BOM SELVAGEM E O CANIBAL

CORUMI_baixa O presente artigo apresenta uma reflexão sobre o modo como são construídas representações de índio nas obras de ficção infantil que circularam de forma expressiva entre 1945-1965, considerado o terceiro período histórico da literatura infantil brasileira. O corpus da análise é composto por seis romances infantis nos quais o índio figura como protagonista ou como importante personagem, a saber: As aventuras de Tibicuera, de Érico Veríssimo (1937); A bandeira das Esmeraldas (1945), de Viriato Corrêa; Expedição aos Martírios (1952) e Volta à Serra Misteriosa (1954), de Francisco Marins; Curumi, o menino selvagem (1956), de Jeronimo Monteiro; Curumim sem nome (1960), de Balthazar de Gadoy Moreira. A partir das análises, concluiu-se que o índio é representado de forma dicotômica nessas obras: de um lado, é um bom selvagem, convertido ao cristianismo, que presta auxílio ao homem branco e está integrado harmonicamente à natureza; de outro lado, é um canibal perigoso e violento, cuja natureza selvagem precisa ser domesticada. As principais referências literárias para a construção dessa dicotomia são buscadas, pelos autores desse período, no cânone da Literatura Brasileira endereçada aos adultos.

Entre o Bom Selvagem e o Canibal

representações de índio
na literatura infantil brasileira
em meados do século XX

Iara Tatiana Bonin
Edgar Roberto Kirchof

Assim como Pixuíra e Tibicuera, as demais personagens indígenas dos livros infantis desse período representadas sob o signo do bom selvagem são sempre leais aos europeus. É o caso, por exemplo, da índia que acompanha o Bandeirante Fernão Dias, na obra A bandeira das Esmeraldas, e de Curumi, um menino que se une a um grupo de expedicionários, guiando as personagens centrais pelos caminhos da floresta. Também nessas obras, além de dóceis, os índios são revestidos de características idealizadas na estética romântica, tais como bravura, nobreza e altivez.

Por outro lado, tais idealizações românticas, quando projetadas sobre o índio, adquirem matizes diferenciados nos enredos. Nos livros aqui analisados é possível observar duas direções diferentes: de um lado, os índios são integrados ao mundo natural, mas sem oferecer qualquer perigo; de outro lado, aparecem em contextos da vida “civilizada”. No primeiro sentido destaca-se, por exemplo, na obra Curumi, o menino selvagem, a exuberância da paisagem e dos elementos naturais, estando o índio integrado a essa paisagem natural. A Amazônia, cenário no qual a trama se desenrola, é representada como uma região de mistérios e de riquezas intermináveis.

Descrevendo, por exemplo, a viagem aérea até a cidade de Belém, o narrador afirma que os aviões “pairam, airosos e bem dispostos, sobre a floresta interminável, como pássaros nativos nas lagoas sombrias da mata” (MONTEIRO, 1956, p. 17); entretanto, a imponente floresta também guarda perigos: as fartas águas escondem piranhas, peixes gigantescos e cobras-grandes; nelas se projetam mitos e histórias sobrenaturais, reconstituídas no desenrolar da narrativa principal. A floresta suscita, desse modo, fascínio e temor. Em outra passagem da narrativa o leitor é informado de que naquela terra

[…] tudo é maravilhoso – o ar transparente, o verde magnífico das árvores, o sorriso das pessoas, a mata virgem onde a cidade encosta […]. O Brasil está lá – no Norte. O Brasil não é isto, estes monstros de cimento armado e asfalto, de ruídos e gritos, de ranger de dentes e pressa que são as cidades de São Paulo e do Rio. (MONTEIRO, 1956, p. 17).

Observa-se no recorte apresentado um apelo ao “primitivismo redentor”, um traço do iluminismo francês destacado anteriormente. A cidade encravada no meio da floresta serve aqui de contraponto às metrópoles, estabelecendo estilos de vida distintos: de um lado, uma relação supostamente harmônica com a natureza, e do outro, uma sociedade carregada de vícios produzidos pelo distanciamento relativo à sua própria natureza.

Sob o exuberante pano de fundo da floresta, o índio figura ora como parte do encantamento suscitado pela paisagem, ora como parte da ameaça que ela significa. Interpretado à luz do código romântico de Rousseau, esse fascínio com a naturalidade, a valentia e a força indígena pode estar ligado à noção de que o índio representaria um “eu” mais autêntico, porque sua imersão na natureza o conecta com algo essencial que, na experiência da cidade, por exemplo, é colocado em segundo plano. Essa representação também pode aludir, por vezes, à noção evolutiva (naturalizada no contexto histórico de meados do século XX) de que o índio representa um “estágio” anterior da civilização, algo como a infância da humanidade.

É Curumi quem conduz e orienta o grupo no interior da densa floresta e os alimenta com caça; ele também serve de intérprete e faz a mediação entre a língua dos colonizadores e a língua caiapó quando os expedicionários capturam um índio e o fazem entregar segredos e tesouros do seu povo. Pela voz de Curumi, o leitor é informado sobre rituais de sacrifício humano, que serão abordados na próxima seção deste texto. Em suma, Curumi é um caso exemplar da representação de bom selvagem articulada à noção de utilidade do índio em um empreendimento colonizador/civilizador.

[…]

Em alguns casos, a ligação entre a ideia do canibalismo como decorrência de uma natureza selvagem adquire uma fundamentação evolutiva, de acordo com a qual a civilização é fruto de uma evolução temporal, que vai aperfeiçoando as culturas e os sujeitos. A obra A bandeira das esmeraldas, por exemplo, contém certas passagens em que um ancião se pronuncia e, em uma delas, responde à seguinte indagação, feita pelo neto, Pedrino: “E os índios eram, na verdade, comedores de carne humana?”. A resposta do ancião é expressa da seguinte maneira:

Eram […], mas isso não diminui os índios. Isso não prova que eles tivessem uma alma ignóbil. Mostra apenas que eram atrasados. Só por atraso os indígenas brasileiros usavam a antropofagia. É preciso que nós nos recordemos que eles estavam na idade da pedra polida. (CORRÊA, 1945, p. 131).

Prosseguindo com sua argumentação, o personagem branco explica que os índios estão mais próximos dos animais do que os europeus, por estarem num estágio inferior de desenvolvimento.

Nas duas primeiras idades – a da pedra lascada e a da pedra polida – o atraso do ser humano é enorme. Na idade da pedra polida ele vai começando a ter certos sentimentos nobres, mas apenas vai começando. É quase um animal. Está em pleno período de selvageria. Desconhece a piedade humana. É, portanto, natural que ele não saiba quanto é horroroso comer seu semelhante. (CORRÊA, 1945, p.133).

Em outra obra, Curumi, o menino selvagem, o autor chega a estabelecer uma diferenciação em termos de nível evolutivo entre duas tribos diferentes, os açurini e os caiapó:

Os açurinis são terríveis inimigos dos caiapós. São muito valentes, mas não salteadores como os outros. Eles ficam quietos em suas terras, que ocupam à margem direita do Xingu…[…] Os açurinis são bons artistas. Fabricam cerâmica, ornamentam seus objetos de uso e suas armas com bom gosto artístico. Tecem redes e dormem nelas. Os caiapós, ao contrário, são rudes, não tecem redes, dormem no chão, não fazem nada de cerâmica e seus objetos de uso são muito rústicos. (MONTEIRO, 1956, p. 51, ortografia atualizada).

Como não poderia deixar de ser, nessa obra a temática do canibalismo está ligada justamente à etnia, representada como “menos evoluída”, dos caiapós, o que também reforça a dicotomia entre os índios dóceis (mais evoluídos) e aqueles que constituem um obstáculo a ser eliminado (os canibais não evoluídos): “Eles não deixam os seringueiros trabalhar. Vivem de tocaia na mata e em torno das barracas” (MONTEIRO, 1956, p. 33). O encontro com a personagem que dá nome à obra, Curumi, também marca a distinção entre este e os demais:

Não era, porém, um enorme selvagem tatuado, de aspecto horroroso, mas sim um garoto de 12 ou 13 anos. Estava inteiramente nu […] a pele estava queimada do sol e os cabelos, também queimados, tinham cor de cobre. […] Sua fisionomia altiva exprimia decisão e domínio. (MONTEIRO, 1956, p. 63-64).

No capítulo final de Curumi, descreve-se um espaço no qual os caiapó realizam sacrifícios rituais como algo imponente e engenhoso, mas também aterrorizante: “O que vimos foi a prova definitiva de que aquela construção se devia a um povo realmente inteligente e capaz” (MONTEIRO, 1956, p. 137). Apesar dessa menção elogiosa, a descrição que segue dá relevo a outra representação –esta, desabonadora: Descendo uma estreita escada de pedras, os protagonistas chegam a um ossuário, situado abaixo de uma ampla mesa ritual – eles comem a carne e os detritos vão para baixo: “esqueletos sem conta amontoavam-se embaixo do buraco circular”.

– Que diabo é isso? – berrou Crioulano.
– São os restos dos sacrifícios! – disse eu.
– Que sacrifícios? Isso foi uma mortandade!
– É um costume dos povos primitivos que veio se prolongando até nossos
dias nesta região, como estamos vendo. Esses povos antigos costumavam
oferecer sacrifícios de sangue aos seus deuses e não era raro que oferecessem
também sacrifícios humanos. (MONTEIRO, 1956, p. 137-138)

[…]

Considerações finais

Uma das principais conclusões a que as análises realizadas neste artigo permitem chegar é que, quando o índio passa a ser representado dentro do campo da literatura infantil, a partir da década de 1930, os autores buscam as principais referências para a construção desse personagem no cânone da Literatura Brasileira endereçada aos adultos, no qual o índio já vinha sendo representado, de diversas maneiras, desde o século XVI; mas, curiosamente, os autores da literatura infantil daquele período não buscaram sua inspiração nas obras de seus contemporâneos, que estavam fortemente influenciados pelas concepções do Modernismo.

De fato, vários autores literários identificados com a estética modernista já vinham desconstruindo, em seus romances, o pensamento colonialista e eurocêntrico em torno do índio e de outras etnias já desde a década de 20. Nesse contexto, deve ser mencionada a obra Macunaíma, de Mário de Andrade, como um marco da revisão de representações literárias consagradas sobre o índio e o negro no cânone literário tradicional. A tendência iniciada com Mario de Andrade e o Modernismo teve uma grande repercussão quanto ao modo como o índio passou a ser representado a partir de então. Como esclarece Rubelise da Cunha (2007, p. 336), ao invés de rememorar antigas concepções eurocêntricas sobre o índio, nas quais ele se define como um Outro na relação com o europeu, autores como, por exemplo, Antônio Callado em Quarup (1967), e Darcy Ribeiro em Maíra (1976), passaram a apontar as incoerências do discurso eurocêntrico sobre esse sujeito.

Não obstante, a literatura infantil produzida entre 1945 e 1960 não se alinhou com o projeto ético-estético do Modernismo brasileiro; antes, procurou as principais referências para a construção do personagem indígena justamente em uma antiga dicotomia existente já desde o início do cânone literário brasileiro, a saber, a ideia do índio enquanto simultaneamente bom selvagem e canibal. Instituída já nos textos dos primeiros exploradores das Américas, essa representação dicotômica foi sendo reproduzida à exaustão ao longo da história da literatura brasileira, chegando a se transformar em um verdadeiro estereótipo, o qual foi amplamente incorporado pelas narrativas infantis produzidas no Brasil entre as décadas de 1945 e 1960.

FONTE:
Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 7, Número Especial, p. 221-238, dez. 2012. Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná, Brasil.

Aqui foram selecionamos apenas os parágrafos referentes ao trabalho de Jeronymo Monteiro. O artigo completo pode ser encontrado em
http://www.revistas2.uepg.br/index.php/praxiseducativa/article/view/5064

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Publicado em 9 de dezembro de 2015 por em Sem categoria.
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