Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

NÓS E A LUA

Lendo e Escrevendo para Jovens

Resposta ao Rubens F. Lucchetti, de Ribeirão Preto

Você me fez a pergunta diretamente, quero responder, pois, diretamente a você.

O argumento de sua novela está bem conduzido até o ponto em que parou. Agora, vejamos o que deseja saber: “Existem, ou não existem pessoas na Lua? Se existem, qual a sua linguagem? E o seu tamanho?

No estado atual da ciência, pode-se afirmar que na Lua não existem habitantes. Pelo menos, habitantes como os imaginamos, capazes de construir edifícios, casas, estradas e o mais. Os telescópios modernos aproximam a Lua de tal maneira que, se houvesse lá uma construção grande, como um hangar de aviões, por exemplo, seria visível. Portanto, se há habitantes na Lua, são bem diferentes dos seres humanos que habitam a terra.

Que linguagem poderiam ter os habitantes da Lua, fossem eles quais fossem? Isto é irrespondível. A imaginação do escritor criará essa linguagem à sua vontade.

Quanto ao tamanho, a resposta seria exatamente a mesma.

Agora, entrando em algumas considerações gerais, devemos nos lembrar do seguinte: na Terra, nesta mesma Terra que habitamos, há seres profundamente diferentes uns dos outros: o elefante e o mosquito. O homem e a formiga. A ameba e a girafa. O peixe e a águia. O infusório e o rinoceronte. Seres totalmente diferentes, vivendo em ambientes diferentes. Por que razão nos acostumamos a pensar que os habitantes de qualquer planeta devem necessariamente se parecer com os seres humanos? Isto não tem lógica. Os habitantes da Lua poderiam ser, por exemplo, formigas de extraordinária inteligência, ou uma espécie de abelhas muito desenvolvidas, ou qualquer inseto que se escolha. Ou mesmo seres inteiramente diferentes de tudo que conhecemos na Terra. Não podemos admitir que a Natureza tenha tão poucos recursos que se limite a copiar em todos os planetas exatamente o que fez num deles…Não é exato?

O que você precisa ter em conta, quando os seus heróis se encontrarem sobre a Lua (se é que vão chegar lá), são as condições físicas do astro. Isto sim. Lembre-se de que a densidade da Lua é menor do que a da Terra. Que seu peso é cerca de seis vezes e meia menor do que a Terra, e por isso, um quilo pesará, na Lua seis vezes e meia a menos; que a atmosfera da Lua, se existe, é diferente da nossa; que a Lua, pela falta de atmosfera, ou por ser esta diferente, recebe a luz e o calor do sol com uma intensidade tremenda, que nem podemos imaginar. Lá não há meias sombras. Onde o sol bate é tudo violentamente iluminado. Onde não bate, é tudo negro.

Outro aspecto interessante a observar é que uma das faces da Lua está eternamente voltada para a Terra e a outra nunca foi vista e talvez nunca o seja, por nós.

Como “matéria atrai matéria na razão direta da massa e inversa do quadrado da distância”, e como a massa da Lua é 49 vezes menor do que a Terra (aquela história do peso, que já contamos) um homem na lua pode dar pulos de seis metros! Imagine só o que será isso!

No mais, caro Lucchetti. Imaginação, Imaginação, Imaginação, Imaginação. Respeito às verdades científicas conhecidas e deixe a imaginação correr. É só o que lhe recomenda o amigo

JERONYMO MONTEIRO
A Gazeta Juvenil nº 21, pág. 26.
05 de agosto de 1948

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 31 de dezembro de 2015 por em Conto, Gazeta Juvenil, Programa de Rádio.
%d blogueiros gostam disto: