Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA – História ε Histórias

LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA_capaA partir dos anos 40, a Amazônia começa a interessar os autores voltados ao público juvenil. Mas as características das obras editadas indicam que elas não são caudatárias do programa modernista, e sim da influência da cultura de massas, veiculada, internamente, pelo cinema, nos filmes senados, pelos livros de aventura e detetive, publicados pela Companhia Editora Nacional (Monteiro Lobato foi um dos tradutores mais assíduos e grande estimulador do gênero, desde os anos 30) ou pela Globo, e pelo rádio.

Neste sentido, é expressiva a produção de Jerônimo Monteiro. Seu primeiro livro, O ouro de Manoa (título original: O irmão do diabo), conta uma expedição à Amazônia, na busca de um tesouro. O tema se alinha ao veio dos livros de aventuras, e a narrativa emprega a estrutura de cortes em meio a ações palpitantes, que o escritor aprendera no cinema e aplicara no rádio, para o qual produzia novelas, sob o pseudônimo de Dick Peter.

A cidade perdida, publicada em 1948, na coleção Terramarear (junto com um livro similar, Kalum, de Menotti del Picchia), confirma a aptidão de Monteiro à ficção de aventura, passada em terras distantes e selvagens. Mas o livro amplia o assunto, pois Sálvio, que, com Jeremias, planeja uma viagem ao norte, tem metas mais ambiciosas: deseja encontrar cidade perdida dos atlantes (já mencionada em O ouro de Manoa), porque esse povo teria se constituído no núcleo gerador da civilização contemporânea.

Identificada como a matriz da humanidade, a Amazônia recupera a aura mítica que os modernistas lhe tinham atribuído. Por sua vez, essa sacralidade se propaga ao país e ao continente que a contêm, conforme expressa a profecia do Coronel Marcondes, um dos protetores dos expedicionários:

“Um dia se há de fazer justiça à nossa terra, reconhecendo que daqui partiram as civilizações do mundo…”
A cidade perdida. São Paulo: Ibrasa, 1969. p. 42

A sentença explicita o projeto nacionalista da obra, conferindo ao Brasil uma prioridade sobre as demais nações. A anterioridade é sinal de supremacia, situada tanto no passado, como no futuro, já que a regeneração da humanidade depende de um novo êxodo da célula original, conservada, até então, intocada e pura.

Se A cidade perdida resgata a representação mítica da região, Corumi, o menino selvagem dá vazão à Amazônia real. Como no outro livro, o narrador, agora um jornalista, desloca-se da cidade para a floresta; e esta se mostra estranha, perigosa e repleta seja de fenômenos espantosos (como a tempestade que enche o rio de tal modo, que eleva o barco onde está o herói ao topo de uma árvore), seja de tesouros escondidos, que os aventureiros descobrem nos confins da zona do rio Xingu.

Monteiro vale-se outra vez do motivo da busca de um tesouro milenar; mas ele, ao mesmo tempo, incorpora uma visão realista do ambiente, que se traduz na revelação da “miséria das populações marginais”, em contraste com a “pujança da mata”,(Corumi, o menino selvagem. São Paulo, Brasiliense, 1956. p. 23) e na crítica à atitude racista e selvagem dos brancos, que liquidam cruelmente os índios que se atravessam em seu caminho.

Esse antagonismo entre os dois povos transparece no conflito criado pela presença de Corumi. Este é um menino branco, educado entre os índios (invertendo um estereótipo do período), o que se torna razão suficiente para Coriolano, o caçador, hostilizá-lo, mesmo quando o outro salva-lhe a vida e conduz os expedicionários até o tesouro escondido.

Respeitando o cânone do livro de aventuras, Monteiro não perde de vista dois aspectos: adota uma postura crítica em relação às suas personagens, evitando idealiza-las; e enraíza o tema, freqüentemente veiculado através da literatura de massas e de outros meios de comunicação de procedência internacional, a um ambiente brasileiro, tanto por integrá-lo a uma vertente em que a Amazônia é objeto de uma representação mítica, como por evitar o ufanismo que pode revestir e camuflar o material literário estrangeiro.

Essas obras de Jerônimo Monteiro atualizam o tom épico da ficção bandeirante. Mas a modernização não se deve apenas à transposição do assunto para o presente, e sim à realização dos objetivos de um gênero, o de aventuras, sem o caráter promocional que o vincula a programas específicos de um momento histórico e impede sua circulação na atualidade de qualquer leitor.

A aventura enquanto tema ainda apareceu em outras circunstâncias temporais: no futuro, em Três meses no século 81 (1947), também de Jerônimo Monteiro, ou no passado, em Aventuras de Xisto (1957), de Lúcia Machado de Almeida.

Três meses no século 81 é o primeiro livro nacional de ficção científica dedicado ao público juvenil. Seu paradigma é A máquina do tempo, de H. G. Wells, cuja presença se faz notar desde o início da história, quando Campos, o narrador e principal personagem, consulta o escritor inglês e expõe-lhe seus planos de viagem ao futuro. Outro ponto de contato entre ambos diz respeito à visão do mundo do futuro: se ele é perfeito do ponto de vista tecnológico, habitam-no pessoas infelizes, física e intelectualmente debilitadas pela ausência de um projeto de vida.

Acima desse paralelo, todavia, Monteiro é fiel à sua temática: na pesquisa das raízes da sociedade que encontra, descobre ser o povo a descendência, enfraquecida, dos atlantes. Com a ajuda de Campos, um grupo, mais revolucionário, reaprende a trabalhar junto à natureza. Por sua vez, a energia vital é novamente fornecida pela Amazônia, o que lhe permite retomar o mito amazônico e formular sua utopia regeneradora.

No desenho de uma civilização ideal, a dos atlantes, e de um espaço para a realização de um programa de vida, a Amazônia, Jerônimo Monteiro constrói uma obra que apresenta traços de parentesco com Lobato. A visão do futuro brasileiro distingue os dois escritores; mas aproxima-os a capacidade de produzir uma ficção original, sem se furtar à influência da cultura da época, pelo contrário, até deixando-se fertilizar por ela. Pela mesma razão, posicionaram-se perante a sociedade nacional, não apenas para a retratarem melhorada (tendência muito comum na literatura infantil) ou piorada, mas para esboçar um projeto de mudança, signo de suas expectativas diante do universo manifesto no e pelo texto.

[…]
A criação de bonecos tem na Emilia, de Lobato, um precedente respeitável na literatura infantil brasileira. E conta com um antepassado ilustre: Pinóquio, protagonista do livro de Collodi. Mas os descendentes dessa tradição, nos anos 40, como O bonequinho de massa (1941), de Mary Buarque, no herdaram a independência de Emilia. Manifestam uma posição bastante conformista, como mostram as palavras finais desse livro:

“Pensando em tanta coisa boa, Juquinha agradeceu ao seu Anjo da Guarda ter-lhe mostrado naquele sonho o que acontece às crianças desobedientes”.
BUARQUE, Mary. O bonequinho de massa. São Paulo: Editora do Brasil, s.d. p. 32

O propósito moralizador e educativo não se restringe a essa história. Em João Bolinha virou gente, Vicente Guimarães repete a fórmula, animando o boneco do título e fazendo-o passar por inúmeras dificuldades, que o herói somente consegue superar, ao se decidir a freqüentar a escola com regularidade e a receber uma educação formal.

Bumba, o boneco que quis virar gente (1955), de Jerônimo Monteiro, é ainda tributário dessa tendência. Mas o escritor introduz modificações que particularizam o livro. O narrador, como sempre, é um adulto; mas, como apresenta a história em primeira pessoa, é também personagem: trata-se do pai da menina Terezinha, a quem inveja por ter ela acesso ao País dos Bonecos. Procura obter com a garota permissão para visitar o lugar mágico, concedida após o seguinte diálogo:

— Pois bem. Vamos lá. Por onde se vai?
— Por qualquer lugar, papai. Eu o levarei. Mas você tem que me obedecerem tudo!
— Sem dúvida, minha filha. Serei um pai muito obediente.
Bumba, o boneco que quis virar gente. São Paulo: Editora do Brasil, 1955.

Fazendo o adulto dependente da criança, Monteiro inverte o estereótipo conhecido; além disso, é a menina quem toma a iniciativa das ações conseguindo que o rei do País dos Bonecos deixe Bumba. o menino rebelde com sua situação de boneco, se transformar em gente.

Este, por seu turno, representa outra alteração de clichês cristalizados: sua rebeldia, que o torna agressivo, e a prepotência, que o faz explorar o trabalho de outros bonecos, não são alvo de uma atitude moralista. É certo que os dois humanos, o narrador e a menina, sempre querem convertê-lo ao caminho do bem, mas o fato de que Bumba não se reforme impede que a história seja educativa.

Nesse sentido, Bumba é um anti-Pinóquio, pois não modifica sua personalidade para alcançar favores. Nem o mundo humano é qualificado como superior ou desejável. Bumba quer ser gente para mandar e ser obedecido, oportunizando a Jerônimo Monteiro extravasar, mais uma vez, seu descontentamento em relação ao comportamento dos seres humanos. Logo, a história não culmina com o tradicional final feliz: Bumba é destroçado e Terezinha decepciona-se com a vida mágica dos bonecos (pois a punição do rei é muito dura) e com a atitude consumista das crianças, que destroem rapidamente os brinquedos ganhos no Natal.

Discípulo de Lobato, como reconhece em algumas passagens do livro, Jerônimo Monteiro consegue contornar os perigos decorrentes tanto do tema que escolhe, como do alinhamento a um escritor consagrado, que assumia contornos míticos. Mas é quem alcança, como nos livros de aventuras, a recuperação do tempo presente e da personagem criança, dando-lhe a atualidade até então ausente e evitando a puerilidade com que os simulacros dela a revestem.

FONTE:
LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA – História ε Histórias
Marisa Lajolo – Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, Professora da Universidade Estadual de Campinas
Regina Zilberman – Doutora em Letras pela Universidade de Heidelberg, Professora da Pontifícia Universidade Católica — RS
São Paulo: Editora Ática, Série Fundamentos – 6ª edição, 2007.

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Publicado em 29 de julho de 2015 por em Sem categoria.
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