Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

LEITURAS PARA MENORES

tico-tico 1941 De vez em quando aparecem nos jornais notícias referentes a menores fugidos da casa paterna para percorrer estradas desconhecidas que lhes falam à imaginação com promessas de aventuras sensacionais; a quadrilha de menores que se organiza para furtar peças de autos e outras coisas mais a mão por essas ruas; e mesmo, uma vez ou outra, noticia-se o caso de um menor que, brincando com arma esquecida pelo pai, fere um companheiro de folguedo.

Nesses casos, surge logo alguém pelos jornais, aproveitando a deixa para, partindo do caso, desferir tremendos golpes contra as leituras entregues às crianças, responsabilizando-as integralmente, sem maiores delongas, nem mais acurado exame, pelo acontecido.

— É essa literatura! Esses livros policiais! Esses suplementos! Esses filmes!… Isso é que estraga as crianças!

Parece que há um propósito deliberado em se aproveitar tais desagradáveis acontecimentos para atacar a moderna literatura juvenil. Porque a verdade é que os menores criminosos não surgiram agora, com o advento das publicações dos romances, dos filmes de aventureiros, policiais, “gangsters” e mocinhos. Eles sempre existiram, e comparecem à crônica policial desde que há uma crônica policial no mundo. A explicação das suas atividades não pode ser procurada exclusivamente no que eles leem, nem nos filmes a que assistem (Seja dito, de passagem, que muitos dos menores criminosos não sabem ler. São criaturas desamparadas, que vivem pela rua ao-Deus-dará, sem conselhos úteis, nem assistência capaz de os guiar por um caminho melhor).

Seria mais conveniente, em tais casos, pesquisar as taras criminosas e a influência da hereditariedade, a existência de distúrbios morais e mentais. Para as crianças que nasceram com males como esses, não se fazem necessárias leituras de nenhuma espécie para que cheguem ao crime. A própria vida lhes dá exemplos e desperta nelas o mal adormecido. Os seus companheiros, as pequenas perversidades naturais da idade, tudo serve para as encaminhar pelo lado mau da vida. Porque essas criaturas não tem o necessário equilíbrio mental capaz de separar o mal do bem, e deixam-se arrastar pelo primeiro, que é o predominante do seu psique.

Nas novelas de aventuras, nos filmes policiais e de bandidos, reside ao contrário, importante dose de ensinamentos morais e, que se devem, por necessidade de educação neste nosso mundo moderno, ministrar às crianças o mais amplamente possível. Mesmo porque esses ensinamentos são de fato aproveitados pela mente juvenil, ao passo que os existentes nas leituras deliberadamente morais, para a educação de nossos filhos, não conseguem esse efeito. Parece arrojado dizer isso, mas o raciocínio imparcial o confirmará.

Há pouco tempo, o jornalista Maurício de Medeiros, em artigo singularmente agudo, fez uma análise das causas e efeitos da moderna literatura infantil e os seus conceitos vem apoiar integralmente os pontos de vista que temos expendido a respeito do mesmo assunto na imprensa paulistana.

Diz o Sr. Maurício de Medeiros em certo ponto do seu artigo que quaisquer que sejam as regras peculiares a um povo segundo as suas concepções sobre a vida, a Moral será sempre um conjunto de atitudes do Homem em face da oposição de dois conceitos fundamentais: o Bem e o Mal.

Em outras palavras, não podemos ter a pretensão de incutir, na mente infantil as noções práticas do Bem, se não lhe dermos, também elementos práticos para estabelecer a comparação com o Mal. O que há de prejudicial neste só pode ser bem entendido quando em confronto com o que há de edificante naquele.

Disse ainda aquele publicista: “A moral aprende-se na ação, ou nas narrativas da ação.” Há um mundo de ensinamentos na prática dessa afirmativa. Ela justifica inteiramente toda a literatura infantil e juvenil que tem aparecido nesses últimos tempos.

Que é essa literatura senão a mais viva narrativa da ação com tremendos conflitos entre o bem e o mal? Que é ela senão o exemplo vivo e palpitante que vai atuar na imaginação do leitor fazendo-o compreender de modo palpável o que é crime e mal, e fazendo-o ver que o mal precisa de deve ser punido? Que mais faz essa literatura do que apresentar ao espírito dos pequenos leitores, em toda a sua pujança, o homem perfeito, que por todos os modos luta contra o Mal e contra os malfeitores, por mais terríveis, espertos e manhos que estes sejam?

E aí, nessas narrativas vivas e movimentadas, onde os homens são atirados em grandes lutas – que a criança pode beber os ensinamentos da moral, de um modo perfeitamente prático e único capaz de lhe penetrar o entendimento. É aí que ela grava na mente, de modo preciso, o que se deve e o que não se deve fazer, acumulando o material que lhe servirá pela vida afora – porque esses ensinamentos não lhe são ministrados sob a forma de conselhos nem de axiomas ou máximas, mas sob o aspecto eficiente e convincente de exemplos movimentados e vibrantes.

Não se diga que os bandidos, os “gangsters”, os malfeitores que pululam nas histórias desse gênero vão influir perniciosamente no espírito infantil. A criança pode, por momentos, empolgar-se com a ação do bandido, que tem coragem espantosa e que faz coisas terríveis. Mas ele não está sozinho, o bandido. Não! O herói, o detetive, o “mocinho” aí está, e entra em ação. Ele é maior, é mais perfeito, é mais corajoso, é mais inteligente, é mais correto que o bandido, e acaba infalivelmente por dominá-lo, prendê-lo e entrega-lo ao justo castigo, defendendo, assim a sociedade, a lei, o direito e a vida humana, com todas as suas instituições morais.

É este o exemplo que a criança grava na memória. Ela admira sempre o mais forte, o que vence, e quer ser igual a ele. Sempre que o menino se defrontar com um malfeitor, nas histórias, no cinema ou nos jornais fará uma tremenda “torcida” para que apareça o “mocinho” (delegado, policial ou detetive) que o combata e vença.
Isto é ensinar moral pela ação, pela narrativa de ação – único meio repitamos, de incutir com eficiência bons princípios na imaginação infantil, que não entende divagações, mas sabe perfeitamente o movimento e a ação.

Claro que seria preciso grande dose de cuidado na criação das novelas de aventuras desse gênero. Não é preciso ir por aí afora, em cavalgada sangrenta, matando e destruindo. Não é preciso fazer cenas de pavor, que levem a criança a grandes tensões nervosas e lhe poderiam ser prejudiciais. O necessário é que se façam histórias movimentadas, bem escritas, simples e que tenham, obrigatoriamente, os seguintes elementos: ação, ação e ação. Somente. Nada de descrições, de pregações de moral, de ensinamentos forçados.

Os elementos educativos de qualquer gênero devem fazer parte integrante do corpo da história e devem ocorrer naturalmente, necessariamente durante o desenvolvimento das aventuras. As lições de moral, de piedade, de tolerância, de bravura, de educação, de civismo serão dadas através da movimentação das personagens, suas lutas e discussões. As lições de história e geografia, de coisas, surgirão, também, naturalmente, pelas situações criadas pelo cenário, pela conversa entre os personagens.

Nada disso é novidade, mas nada se faz também. Recebemos no Brasil montes incalculáveis de histórias às vezes sem pés nem cabeça, que nos mandam do estrangeiro; entregamo-las a tradutores quase sempre incompetentes, que fazem verdadeiras saladas, e, depois, damo-las aos nossos pequenos. Raramente essas histórias importadas são exatamente o que a criança brasileira precisa, mas é só o que ela tem, e não podemos escolher.

Os poderes públicos poderiam tomar a peito este caso e orientá-lo segundo os pontos de vista que ficam acima ou de outros mais acabados. E os nossos escritores poderiam, deveriam também voltar a sua atenção para esse campo, o maior e o mais inexplorado na literatura indígena.

E vamos mais longe: essa literatura, que seria ideal para as nossas crianças e a mais apropriada para constituir os livros de leitura das escolas – porque (…) bem nesta verdade insofismável que poucos querem encarar) ela faria com que as crianças escolares lessem por prazer, recebendo o que mais lhes agrada; e não porque são obrigadas a fazê-lo com o que nos parece que é melhor para a sua formação moral. Nós sabemos algumas coisas, mas as crianças sabem positivamente o que querem e o que mais gostam.

Seremos inteligentes quando, em vez de as forçarmos a engolir somente o que imaginamos que seja o melhor, lhes fornecermos o que mais elas querem, sob a forma mais conveniente ao nosso entendimento.

Jeronymo Monteiro
O Estado de S.Paulo
13 de agosto de 1941 – pág. 04

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Publicado em 28 de julho de 2015 por em Sem categoria.
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