Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

O OURO DE MANOA

MAPA MANOA_baixa

Mapa do Vale de Manoa, usado no começo do livro O Ouro de Manoa

Texto do editor e jornalista Nelson Palma Travassos para o livro O Ouro de Manoa, de Jeronymo Monteiro. É curiosa a referência que ele faz do escritor André Carneiro, autor de vário livros de ficção científica e amigo de Jeronymo.

 

NOTA EXPLICATIVA

Escreveu-o, quando, ainda moço, por uma incoercível vocação literária; encontrou nas letras o seu campo predileto de ação.

Este livro, “O Ouro de Manoa”, foi o primeiro publicado por Jeronymo Monteiro. Escreveu-o, quando ainda moço, por uma incoercível vocação literária; encontrou nas letras o seu campo predileto de ação. Escritor nato, foi um autodidata.

Todo portador de um título vê, com restrições, a invasão do campo intelectual por aqueles que não cursaram universidades. No fim de contas, isto é injusto porque, no geral, o título de doutoramento muita vez nada exprime. E os autodidatas pululam na primeira linha dos intelectuais. Nas letras pátrias, um nome, apenas, bastaria para comprovação dessa assertiva – Machado de Assis. Em todas as profissões liberais, encontram-se exemplos de autodidatas notáveis como Evaristo de Morais, nas letras jurídicas.

O fato é que Jeronymo Monteiro foi um exemplo curioso de autodidatismo.

Escritor espontâneo, não podia, entretanto, dedicar todo o seu tempo à literatura. Ocupou-se inicialmente, de misteres simples, ingressando, depois, nesta grande escola de letras, que é o jornal.

Foi jornalista a vida toda. E grande jornalista. Escrevia com muita correção e naturalidade. Era claro, preciso, possuindo linguagem elegante e, mais do que tudo, um estilo personalíssimo, o que é raro.
Um característico seu era a divagação sonhadora. Otimista, de ótima formação moral, gostaria que o mundo fosse muito diverso do que é. Enveredando pelo rumo da ficção literária creio que se deu mal como analista de almas, uma vez que o mundo anda tão chafurdado, que a própria alma não consegue passar incólume por essa vida.

De princípio, Jeronymo Monteiro dedica-se à novela policial radiofônica. O seu personagem Dick Peter chegou a ser gente. Mas a vocação de Jeronymo era de maior transcendência. Socorreu-se da ficção-científica.

É este um gênero de literatura que nunca foi do meu agrado. Embora a ciência hoje ande inventando coisas que nem a imaginação humana o pode fazer, a ficção-científica peca sempre pelos deslizes e, se em algum lugar ela ultrapassa a capacidade fantasista dos preceitos estabelecidos, noutro ela falha por incorrer em erros. Assim, por exemplo, quando Wells inventa “o homem invisível” esquece que ele não podia ser invisível porque a câmara ocular é escura e se não o for o homem transparente e incolor seria cego.

Júlio Verne foi o mais simpático dos ficcionistas científicos, porque na sua literatura há sempre uma esperança, um porvir possível. Seus enredos fantasiosos poderiam ser realizáveis, como aliás o foram muitos deles.

Mesmo no seu tempo, entretanto, já o gênero ficção-científica não era levado muito a sério, tanto que Júlio Verne tentou entrar para a Academia Francesa de Letras e não o conseguiu.

Os Andrés Carneiros, que adoram a ficção-científica, dirão que este argumento não vale nada, porque embora Júlio Verne não tenha entrado para aquele silogeu, o seu nome literário ficou, e ninguém se recorda hoje dos nomes de muitos dos acadêmicos daquele tempo.

Modernamente, com o acúmulo das descobertas em todos os ramos do saber humano, o gênero ficção-científica proliferou bastante. E Jeronymo Monteiro foi um seu apaixonado cultor.

O presente livro é anterior ao seu interesse pela ficção-científica. Trata-se de um romance fantástico, com muitos defeitos de construção. Defeitos artesanais, de principiante. Não de imaginação. Sua leitura é agradável e atraente para os que nela buscam um enredo.

Mas com esta recente reedição o “Clube do Livro” teve outro intuito. Um intuito didático, como ocorre com a leitura de todas as obras secundárias dos grandes escritores.

Quem estuda Literatura e conhece a obra de determinado autor, a sua evolução é julgada pelos seus primeiros livros, quando não pela sua própria correspondência particular.

Este foi, como dissemos, o primeiro livro de Jeronymo Monteiro. Comparando-se com os posteriores desse escritor como “O homem de pulôver cor de vinho”, “Os nazis na Ilha dos Mistérios”, “Tangentes da Realidade” e outros, vê-se como, pelo estudo Jeronymo Monteiro se corrigiu, se aperfeiçoou, vindo a tornar-se um dos bons e aplaudidos escritores brasileiros.

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Nelson Palma Travassos (1903—1984) foi jornalista, editor e escritor brasileiro. Fundou a Editora Revista dos Tribunais. Foi membro da Academia Paulista de Letras e da Academia Paulista de Jornalismo.

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Publicado em 27 de julho de 2015 por em Sem categoria.
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