Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

TEXTO DE ABERTURA DA “SEMANA DE MONTEIRO LOBATO”

Monteiro Lobato_Acervo Família Monteiro Lobato

Meus amigos, meus companheiros,
Aqui estamos outra vez junto à sombra luminosa de Monteiro Lobato, no prolongamento de sua vida, de sua obra e, principalmente dos seus sonhos de prosperidade para um Brasil mais rico e feliz.

No fundo, o que todos nós queremos é que Lobato não se dilua no esquecimento – e não se diluirá, porque foi um homem grande demais e porque deixou atrás de si não só a obra imensa, mas um punhado de amigos, de admiradores, de homens que lutam pela continuidade das suas idéias. Em seu “Canto de Amor para Monteiro Lobato”, Rossine Camargo Guarnieri disse estas coisas sublimes:

“Da terra há de jorrar
o ouro negro” dos teus sonhos,
não para nutrir a riqueza dos ricos,
mas sim para dar pão ao povo do Brasil.
Descansa, meu camarada:
Em trono do teu cadáver
Milhões de brasileiros se unem
Para lutar e vencer!
Descansa, lutador!
Perdoa as palavras de fel
Que amargam de minha boca
Nesta hora propicia
Em que nós te plantamos,
Oh! Viva e fecunda semente!

E aqui estamos, pequenos diante desse vulto que ‘te tão grande como o Brasil que ele sonhou e lutou para construir. E que interesse move estes amigos de Lobato? Participar de sua riqueza? Ganhar dividendos com as ações de suas companhias de petróleo, de ferro ou gráficas? Felizmente, meus amigos, não é nada tão terreno e imediatista que nos reúne aqui, pela décima Quinta vez. É algo muito maior. Queremos, sim, regar com nosso espírito, com nossa fé, a viva e fecunda Semente, para que dela surja o jequitibá imenso da vida e da obra de Lobato – um jequitibá a cuja sombra todos os brasileiros tenham trabalho e pão, tranquilidade e segurança. Os jequitibás são de crescimento demorado. Levam muito tempo para se tornarem as árvores majestosas que devem ser. Precisam, durante o seu crescimento, alimentação e cuidados. É o que lhe estamos dando: carinho, assistência, permanência no culto, veneração à obra, teimosia contra a tendência destruidora do esquecimento e do abandono.

Porque, meus amigos, a verdade é que Lobato, como sofreu durante suas grandes lutas em vida oposição e descrédito, ridicularização e menosprezo por parte daqueles que podiam Ter ajudado a sua obra de emancipação do brasil – sofre ainda oposição depois de morto: há gente em nossa terra que prefere ver esquecida a sua memória. Mas essa gente esqueceu-se da força imensa, que é a nossa mocidade, a generosa mocidade de nossa terra, mais influenciada do que ela mesma talvez o perceba, pelo espirito lobatiano; esqueceu-se também de homens como Oswaldo Guizard e Haylton Lucas – dínamos permanentes e incansáveis destas Semanas Monteiro Lobato, que todos os anos reerguem e cada vez mais alto, o vulto já de si tão grande desse homenzinho de Taubaté; esqueceu-se de espíritos como o de Artur Neves, Nelson Palma Travassos, Caio Prado Junior, Edgard Cavalheiro, Luís Martins Paulo Dantas e outros a quem pedimos perdão por não citar – espíritos que souberam e sabem quem foi Lobato, qual foi a grandeza de sua luta, e estão sempre prontos a terçar armas por ela.

Lobato foi grande em tudo o que fez. Nas artes, nas letras, na indústria, o Brasil deve-lhe uma dívida que nunca poderá pagar. Porque suas ideais venceram. O impulso inicial que ele deu à pasmaceira nacional progrediu como reação em cadeia e fez do Brasil o que ele é hoje e o que será no futuro.

Ele lutou pelo petróleo e pelo ferro. Com respeito ao ferro, Artur Neves, um homem que, se o Brasil tiver consciência, figurará no panteão dos maiores do país, assim falou numa aula sobre Lobato e o problema editorial – : “Lobato não se limitou a defender o petróleo nacional. Ao voltar dos Estados Unidos, trouxe na sua vasta bagagem de experiência uma fórmula que, a seu ver, resolveria o problema do ferro no Brasil. Foi ele, entre nós, o divulgador e o defensor ardoroso do processo Smith, da redução do óxido de ferro em baixa temperatura. O libro “Ferro” em que aparecem reunidos os seus artigos publicados no “O Estado de São Paulo” em 1931, foi considerado pelos técnicos como uma valiosa contribuição ao estudo do nosso problema siderúrgico e serviu de incentivo à formação de diversas empresas que até hoje empregam o processo preconizado por Monteiro Lobato”.

Quando Lobato lutava, perdia a saúde, aumentava sua pobreza nas campanhas de ferro e pelo petróleo, os magnatas riam-se dele, chamavam-no louco, visionário, poeta.

Era Lobato louco, visionário, poeta? Não. Era, apenas um homem que vivia no futuro. Tanto é verdade que suas loucuras são hoje a base de sólidas fortunas de outros. O ferro, o aço, aí estão, montados em idéias de Lobato. Se a indústria editorial é hoje poderosa no Brasil, é porque ele fundou e manteve, por algum tempo, a Companhia Gráfico Editora Monteiro Lobato, primeiro a sós, depois com Octalles Marcondes Ferreira, que continuou sua obra e fundou a mais sólida empresa editora do Brasil, A companhia Editora Nacional.

O Petróleo, que foi a sua mais louca e visionária campanha, no entender dos donos do Brasil daquele tempo, aí está. Tive a ventura de ser seu companheiro durante toda a campanha. Fui diretor da Revista do Petróleo, que sua companhia editava. Vivi com ele de perto. Ouvi-o dizer, muitas vezes, com aquele seu espírito mordaz, entre galhofeiro e crítico: Veja, Jerônimo. A natureza, antecipadamente, sabendo onde ficariam as fronteiras do Brasil, traçou uma linha e decidiu: desta linha para o Atlântico não haverá petróleo”. Por isso, havia petróleo em todos os países da América, menos para dentro das fronteiras do Brasil. No entanto, como ele fartamente denunciou, com a colaboração de seus companheiros Hitário Freire e Victor Freire, empresas petrolíferas estrangeiras já tinham, de longa data, se apoderado (acaparado, é o terma) das terras petrolíferas do Brasil. Não fosse a lei de Getúlio Vargas de nacionalização do subsolo, não teríamos petróleo hoje, isto é, não teríamos petróleo nosso, teríamos petróleo, mas dos outros.

Era este o visionário, o poeta, o sonhador. Visionário, sim, de grandes visões,; poeta, sim, de grandes poemas de nacionalidade,; sonhador, sim, de imensos sonhos premonitórios.

Meus amigos, isto cansa, porque dói e comove, porque desanima e faz sofrer. Lobato, que devia ser carregado em trunfo todos os dias pelo Brasil inteiro, quando saia à rua, foi praticamente, intencionalmente ignorado, escarnecido e encarcerado.

Nós, somos da sua geração, nada mais podemos fazer do que isto que estamos fazendo: falar, recordar, lutar pela sua memória, procurar fazer com que não seja esquecido. Mas, tenho a impressão de que somos afoitos. Lobato, em sua memória gigantesca, um pouco apoiada nesta instituição da Semana Monteiro Lobato, viverá para sempre. E há uma razão séria para isso, além de todas as razões que apontamos ligeiramente nesta breve palestra: a sua literatura infantil.

Nelson Palma Travassos que, a nosso ver, escreveu o melhor livro de estudo da personalidade lobatiana, “Minhas Memórias dos Monteiros Lobatos”, tem nesse livro, à página 87 este trecho:
“Sua literatura infantil é, em grande parte, uma contínua aula de ciências práticas, onde aprendem pais e filhos. Usava a arte de saber escrever para divulgar planos econômicos, políticos, sociológicos, financeiros, artísticos, científicos. Desprendido, visando somente a sua mania difusora de cultura, não se compreendeu apenas editado, editou toda gente, fazendo obra nacionalista, do mais puro patriotismo, de larga visão. Ridicularizou os patrioteiros de mentalidade tacanha. Combateu o eruditismo balofo. Procurou construir uma literatura redigida em língua nacional. A pátria estava sempre presente ao seu espírito.”

Diz, também, esse grande conhecedor que foi amigo companheiro de Lobato: ä Monteiro Lobato cabe a primogenitura da inovação da arte de escrever e pensar no Brasil. Pelo menos, o que soube impor essa renovação. Foi um precursor. O precursor da Semana da Arte Moderna.

Não havia, pois, verdadeiramente, razão para o ressentimento de Sergio Milliet. Esse outro imenso vulto da cultura nacional tão cedo desaparecido do nosso convívio. Sem Lobato, talvez não houvesse a “Semana da Arte Moderna” que marcou novos rumos às artes de nossa terra.

Assim como não tinham razão os que o acusaram de ser um detrator do Vale do Paraíba, que ela na verdade amava. Tudo isto está implícito em sua complicada personalidade, tão bem estudada por Nelson Palma Travassos. É que ele viu o mal que minava não só o Vale, mas o Brasil todo e teve coragem de o denunciar, num país que as verdades que nos envergonham não devem ser ditas – o que criou o nefasto ufanismo ensinado nas escolas primárias e prolongado pela vida fora até hoje nas gerações mais velhas. Os moços de nossos dias já não temem a verdade. Lobato ensinou-os a encará-la, reconhecê-la e combatê-la, mostrando-lhes que é melhor patriotismo ver o mal e proclamá-lo do que estender sobre ele o manto mentiroso de uma grandeza, de uma prosperidade nacional que continua sendo futura.

A literatura infantil de Lobato, bem como disse Travassos, é literatura para filhos e pais. Eu diria, mesmo, que é mas para pais do que para filhos. Não sei se não será mais proveitosa à compreensão das coisas, para os adultos, a sua obra infantil do que a adulta – porque só nos livros que escreveu para as crianças Lobato se completou e satisfez. Foi aí que se encontrou a si mesmo e fez, de algum modo, as pazes com o mundo errado em que viveu. E é uma obra tão extraordinária, de tais qualidades , que as crianças a lêem e compreendem e os adultos a lêem e encontram nela farto material para meditação. Por isso eu diria, embora me acusem de exagero, que a obra infantil de Lobato é a maior do mundo. Dia virá em que as crianças de todos os países a lerão em todos os idiomas.

Monteiro Lobato, ao fim da vida, sabia que ia morrer e não teve nenhuma revolta contra a morte. Acompanhei seus últimos dias no apartamento do edifício da Brasiliense, na rua Barão de Itapetininga. Ele esperava serenamente o fim. Disse-me mais de uma vez que a morte chegaria bem a tempo, nada mais tinha a fazer. Não creio que se tratasse simplesmente de atitude. Penso que era verdade. Não estive com ele nas últimas horas, porque viajei para fora do Estado, mas sei que Lobato morreu tranquilo consigo mesmo, embora desencantado com sua terra, que lhe deu tantos desgostos e lhe esmagou tantos sonhos. Acredito que ele não tinha consciência precisa da Semente que foi e que está desabrochando, cada vez mais em frutos magníficos. Porque a despeito de toda a resistência, sua obra frutifica e, por isso, meus amigos, Lobato não morreu. Está aqui, entre nós, sobre nós, dentro de nós, trabalhando com sua fé incansável a alma dos moços que são o futuro e a alma dos velhos que também morrerão tranquilos, felizes porque viveram no seu tempo, ao seu lado – o que é um motivo de orgulho!

Jeronymo Monteiro
Taubaté – 16.04.1967

Abertura Semana Monteiro Lobato_baixa

Identificação do texto assinada por Jeronymo Monteiro

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Informação

Publicado em 2 de julho de 2015 por em Infantil e Juvenil.
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