Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

PERFIL HUMANO SEGUNDO THEREZINHA MONTEIRO

Ouro de Manoa

Mário Graciotti pediu-me que traçasse um perfil humano de Jeronymo Monteiro. Pode parecer estranho que se faça tal pedido a uma filha: que se pode dizer do pai, senão bem? Isso seria verdadeiro se tivéssemos sido, apenas, pai e filha. Fomos mais, muito mais do que isso: amigos.
Não seria preciso dizer mais nada de um homem que conseguiu ser amigo dos filhos. Nisso está resumido tudo que pode haver de melhor num ser humano.

Pais, todos que têm filhos ou não. É fácil ser amigo de alguém. Muito difícil é ser amigo de um filho. Jeronymo o conseguiu.

Não se trata de tecer elogios. Era um homem como qualquer outro: poderia ter sido melhor ou pior. Mas deve, tem que ter sido o melhor que podia ser, uma vez que deixou tanto vazio, tanta ansiedade, tanta tristeza diante da impotência que senti de não poder mudar a vida, a natureza, o cosmos, para que ficasse aqui, comigo.

Tinha defeitos – não seria humano se não os tivesse –, mas que desapareciam diante da capacidade que tinha de ser “gente”.

Menino que começou do nada – filho de família portuguesa, pobre, passou a infância no Brás. Estudou, sim: até o 2º ano primário. Com sete anos já trabalhava. Primeiro, entregando colchões, depois malas, depois como aprendiz de sapateiro… Mas, apesar do pai analfabeto, teimava em ler, agarrava-se aos livros que encontrasse, fossem quais fossem. Retirado da Escola Normal Padre Anchieta – para que estudar? – trabalhava, apenas. Um vendeiro da rua do Hipódromo, seu Elias, que também gostava de ler, emprestava livros ao menino ávido do mundo encantado da literatura.

Mocinho, ia espiar os escritores nas livrarias, os jornalistas. Não se aproximava: tinha vergonha dos sapatos de tênis (o máximo que o rígido pai lhe permitiu foi comprar botinas, aos 18 anos, para ir ao primeiro baile).

E, além de ler, não é que o menino tinha outro vício inútil e irritante? Escrevia! Aos quinze anos escreveu o primeiro conto, “No País das Fadas”, que foi publicado pela Melhoramentos, em 1931. O dinheiro dos direitos autorais tirou de grande enrascada financeira o já pai de família (casou-se aos 22 anos e nessa época era pai do primeiro de quatro filhos).

Em 1932 escreveu o primeiro livro, “O Irmão do Diabo”, publicado pela Cia Editora Nacional, em 1937. Esse livro, fruto da decisão de “escrever em conjunto”— já havia publicado vários contos em revistas e jornais – com um dos muitos amigos que teve, Walter Baron. Acabou sendo escrito só por Jeronymo. Baron era um homem estranho; desapareceu da vida dele como apareceu: de repente. Era um aventureiro, um andarilho. O máximo que fizeram juntos foi o “esqueleto’’ disperso do livro. Jeronymo escreveu-o e pôs o nome do amigo: que nunca mais tornou a ver – como autor e o próprio como narrador.

“O Ouro de Manoa” é esse livro, é “O Irmão do Diabo” que volta, reeditado pelo Clube do Livro. Sabe-se que não é o melhor livro de Jeronymo Monteiro, mas é o primeiro e o contrato de publicação, em 1969, o ano anterior à sua morte, veio resolver mais uma de suas muitas “enrascadas” (qual o escritor brasileiro, com pouquíssimos exceções, que não vive “enrascado” financeiramente, se teima em escrever?). Sua publicação é, antes de mais nada, uma homenagem do antigo editor, com a intenção de trazer a público um marco, uma fase da vida de Jeronymo Monteiro escritor. E isto é válido.

O Jeronymo “homem” tinha amplo círculo de amizades. Seu espírito aberto, franco, que aceitava diálogo, crítica , discussões com adultos e jovens (aliás, sua esperança de mundo melhor residia na juventude), fazia com que fosse muito procurado por rapazes e garotas. Entendia os moços, conseguia acompanhá-los, “sentir” o mundo deles. Difícil isso, mas não para ele que, em 1931, escrevia em seu diário: “venho de me submeter a um sacrifício: cortar o cabelo. Isto e fazer a barba são das obrigações sociais as que mais me incomodam…

Ë esse espírito simples , desejoso de liberdade pessoal, persistiu nele através dos anos. Assim como persistiu a impressão de ser sempre o garoto “metido” a literato. Apesar do discreto sucesso como escritor, do pioneirismo na literatura policiai e de ficção científica no Brasil, do muito que sabia, sentia, e que soube dizer nos livros que escreveu depois, continuava a não “acreditar” em si, a se admirar por ter como amigos homens que considerava excepcionais, que tinha sempre a impressão de estar “espiando” de fora…

Num perfil humano há de tudo: bom e mau, alegre e triste, decepcionante e admirável. Ao traçar o do meu Amigo, de meu pai, só posso dizer: foi um homem. Um homem que, felizmente, tive a meu lado, que me deu muito de si. E só posso me alegrar ao ver um pouquinho dele, o esboço do escritor – que não conheci nos primeiros passos – revivido neste livro.

Therezinha Monteiro
São Paulo – 15/09/72

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Informação

Publicado em 30 de junho de 2015 por em Jornalismo.
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