Jeronymo Monteiro

O escritor Jeronymo Barbosa Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da literatura infantil e juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio-teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como "Pai da Ficção Científica Brasileira".

JERONYMO MONTEIRO

JeroPouco conhecido do público (e até mesmo da crítica), o escritor Jeronymo Monteiro (1908-1970) é um marco fundamental da Literatura infantil e Juvenil do Brasil. Foi um dos precursores do rádio teatro, criador do primeiro detetive brasileiro e da primeira série policial. Mas, acima de tudo, é sempre lembrado como “Pai da Ficção Científica Brasileira”.

De um ponto de vista cronológico, chamar Jeronymo Monteiro de “Pai da Ficção Científica Brasileira” é uma afirmação, embora generosa, inexata. Entretanto, se ele não foi o precursor único e sublime da ficção científica brasileira, ocupa com certeza, um lugar de fundamental importância em sua gênese, merecendo assim tal classificação, já que foi sua imaginação antecipadora que viu na ficção científica, segundo suas próprias palavras “um gênero literário o mais amplo que já se criou na literatura universal, por suas possibilidades infinitas de movimento no espaço e no tempo. Um gênero que liberta a imaginação das peias da velha pragmática e permite-lhe o vôo mais arrojado, ligado, apenas, às possibilidades oferecidas pelas conquistas e pesquisas técnicas. Todos os ramos da ciência e da técnica se oferecem ao escritor e ao leitor de ficção científica. O escritor pega qualquer um deles, parte de uma possibilidade e extrapola, criando o seu mundo, a sua história, a sua mensagem, o seu drama, a sua comédia. Não tem limites, desde que se mantenha dentro do ponto de vista adotado e dentro da lógica balizada por esse ponto de vista. Esta é a imensa vantagem do gênero. Não estão em ‘moda’ as viagens interplanetárias ou interestelares. Hoje o Homem é o campo da ficção científica – o homem e suas possibilidades no futuro”.

Sempre desenvolveu atividades profissionais ligadas à escrita. Em suas obras de ficção científica, ele recorreu ao passado e ao futuro como procedimento para refletir sobre o presente, no sentido de trazer à literatura de entretenimento questões que dizem respeito aos problemas sociais e suas resoluções voltadas naquilo que o homem tem de melhor: ele mesmo.

Um homem dedicado às letras

Jeronymo Barbosa Monteiro nasceu no bairro do Brás em São Paulo, no dia 11 de dezembro de 1908. Teve uma infância difícil. Filho de operários tecelões pobres foi criado com a rudeza de um pai de origens muito humildes, da cidade Trás dos Montes, em Portugal, que não sabia ler, e de uma mãe submissa e meiga, incapaz de controlar ou se opor ao gênio difícil do marido.

Aos oito anos de idade, com apenas o Segundo Ano do então Curso Primário, Jeronymo foi retirado da escola pelo pai: “já sabia demais e precisava trabalhar”. Foi entregador da Casas das Malas, entregador de colchões, aprendiz de sapateiro na Indústria de Calçados Clark, aprendiz de lustrador no Liceu de Artes e Ofícios, ajudante de eletricista com seu cunhado Evaristo Moreira, além de exercer outros trabalhos, não se fixando em nenhum. Aos 14 anos de idade foi admitido como praticante (equivalente ao nosso atual office-boy) na seção de Estatística, da Companhia Sorocabana de Estrada de Ferro, e aí permaneceu por 18 anos.

Menino, Jeronymo descobriu um tesouro na Venda do Seu Elias, na rua do Hipódromo: livros. Foi assim que começou a ler e se apaixonou para sempre pela leitura. Quando podia, escapava de casa e se enfiava na venda do “Turco”, que achava graça no interesse do menino e o deixava ler tudo que tinha. Conheceu assim os livros do romancista e ensaísta inglês H. G. Wells, o primeiro responsável por sua paixão pela ficção-científica e, também, o “culpado” de Jeronymo aprender sozinho italiano, inglês, espanhol e francês, pois queria ler Wells nas línguas que encontrava.

À medida que ia crescendo e ao começar a trabalhar, surrupiava tostões de seus magros ordenados e comprava livros, que escondia com muito cuidado. Um dia o seu pai descobriu os livros e queimou “aquelas coisas inúteis que faziam o menino jogar dinheiro fora”.

Em outra ocasião sua irmã, Rosalina, estava muito doente, acamada e ele costumava fazer-lhe companhia, contando histórias. Aos quinze anos escreveu No Reino das Fadas especialmente para ela, que foi publicada anos mais tarde pela editora Melhoramentos.

No começo da década de 1930, foi desenganado pelos médicos após descobrir que tinha contraído tuberculose intestinal. Deram-lhe seis meses de vida. Foi então que decidiu mudar-se para Mongaguá, que conhecera quando trabalhara na Estrada de Ferro Sorocabana. Lá, vivia no mato, onde cultivava e colhia orquídeas e as vendia na cidade. Decorridos os seis meses fatídicos, voltou a procurar os médicos que ficaram intrigados, pois milagrosamente estava curado. Detalhe, sua alimentação durante este período foi, basicamente, de sanduíche de mortadela e café.

De volta a São Paulo e à família passou a ser comentarista do Correio Paulistano, iniciou a carreira de redator de Publicidade e, a seguir, a de radialista. Como publicitário, em 1937, trabalhando como redator da Empresa de Propaganda Standard criou para a propaganda do Café Jardim, o personagem policial Dick Peter, levando-o ao rádio. Primeiro na Rádio Difusora e depois na recém-inaugurada Rádio Tupi (1938), mantendo com sucesso, durante três anos, as novelas policiais As Aventuras de Dick Peter, um marco do rádio-teatro.

Como radialista, foi também um dos precursores do rádio-teatro com O Homem de Aço (1942), sobre as aventuras de um robô; Futebolino (1942), personagem criado para as Balas Futebol; e o programa de humor Detetive Fia Pino e seu Ajudante Piúva, que se transformou em tiras de jornal, na Rádio Cruzeiro do Sul. Produziu programas de auditório, musicais e de humor; foi programador das rádios Excelsior, Cosmos e Panamericana.

Na Rádio Tupi, estreou como animador em 1938, no programa de perguntas e respostas “Caixinha Mágica”, onde o “Dr. Sabe-tudo” respondia às perguntas da com auxílio dos ouvintes presentes no auditório. Em 1950, escreveu o programa “Através do Folclore”, para a Rádio Excelsior transmitido com a participação dos artistas do seu rádio teatro e “Retrato do Brasil”, programa focalizando coisas e costumes de nossa terra. Também na Excelsior produziu “Música e Romance”; e escreveu “Cenas Brasileiras”, em 1952. Ainda na Excelsior produziu, em 1953, o programa “Curiosidades Científicas”. Na Rádio Nacional, produziu e dirigiu os programas diários “Isto Acontece” e “Bom Apetite”, além dos musicais “Traço-de-União” e “Cancioneiro do Brasil”, com Inezita Barroso e Mariano Gouveia.

As aventuras do arguto e romântico detetive Dick Peter, fizeram-no conhecido por toda a cidade. O sucesso aumentou, então, com o lançamento do álbum de figurinhas e em livros. A Teia Invisível, A Febre Verde, O Misterioso Tarântula e tantos outros casos de suspense resolvidos inteligentemente por Dick Peter, fizeram-no muito mais famoso que o seu criador, já que assinava, por exigência de contrato, como Ronnie Wells. Em 1947, começa a ser publicada em tiras diárias no Diário da Noite, e em 1952 como histórias em quadrinhos, desenhadas por Jayme Cortez, quando então Jeronymo passou a assinar as histórias com seu próprio nome.

Por exigência do patrocinador, também, todos os nomes, lugares e peculiaridades deveriam ser norte-americanas. Mesmo assim Jeronymo conseguiu imprimir ao herói-detetive, no seu combate com a organização A Teia e ao seu arqui-inimigo Tarântula e aos outros criminosos um tom nacional, seja pelo seu bom humor ou grande confiança em si mesmo, características que via nos brasileiros. Em histórias como O Crime da Represa Nova, o cenário descrito era na verdade a represa de Santo Amaro, em São Paulo.

Como jornalista, sua primeira experiência em um jornal de grande porte foi o de revisor no O Estado de São Paulo, em 1928. Foi repórter e preparador de texto na Folha de São Paulo, onde colaborou desde 1944. criou e manteve a coluna “Por este mundo afora” (que depois passou a se chamar “Panorama”), sempre uma das mais lidas do jornal, desde 1957 até seu falecimento, e continuada por sua filha Therezinha Monteiro Deutsch. Também manteve desde 1958, a excelente coluna “Admirável Mundo Novo”, de divulgação científica, com informações e contos de ficção científica, no A Tribuna, de Santos. Em 1957, ocupou o cargo de supervisor da revista Casa e Jardim; foi repórter e preparador de texto do Última Hora e do Jornal de Notícias, entre outros jornais.

Em 1948, recebeu da diretoria do jornal A Gazeta a incumbência de trazer de volta a Gazetinha Juvenil,onde foi seu diretor de redação. Quando a Editora Abril começou, em 1950, foi chamado para ser o diretor de sua primeira publicação, a revista O Pato Donald, já que era considerado um dos melhores escritores infanto-juvenis da época. Além de primeiro editor, caberia a ele as funções de tradutor, redator e secretário. Inventou vários dos nomes de personagens Disney que subsistem até hoje no Brasil, como por exemplo, Tio Patinhas, Huguinho, Zezinho e Luizinho, entre outros. Em 1959, organizou  as antologias Conto Trágico e Conto Fantástico para a Editora Civilização Brasileira.

Pioneiro na ficção científica no Brasil foi diretor de redação do Magazine de Ficção Científica, da editora Globo, versão brasileira da Fantasy & Science Fiction norte-americana que, por iniciativa sua, sempre apresentava a cada número um autor brasileiro de FC. Apaixonado por ficção científica, principalmente como leitor insaciável, foi fundador em 1964, da Associação Brasileira de Ficção Científica.

Foi tradutor dos idiomas que aprendeu sozinho, traduzindo livros de grandes escritores como Alberto Moravia, Pierre de Latio, Victor Hugo, Indro Montanelli, Concordia Merrel entre outros.

Faleceu em 1º de junho, vítima de um aneurisma na aorta.

Um sonho utópico

Jeronymo Monteiro foi um visionário que buscou na imagem do futuro, a paz e a concórdia entre os homens que não podia encontrar neste mundo, castigado pela violência. Daí, sua dedicação à ficção científica, da qual foi o pioneiro no Brasil e devotou seus melhores esforços.

Na introdução do seu romance Três Meses no Século 81 (1947), sob o título de “Com Licença”, Jeronymo dedica sua história às pessoas que “admitem a existência de uma porção de coisas além daqueles que os espíritos positivos e áridos julgam totais e concludentes”. Justificando-se de certa forma ele ainda escreve que “seu objetivo foi divertir o autor enquanto criava, facilitando-lhe o trabalho de alijar o cérebro de uma porção de estrepes incômodos, como também divertir o leitor, abrindo ante sua imaginação uma cortina que por mais que se puxe teima em se conservar fechada. Neste mundo contraditório e mau em que vivemos existem raras oportunidades de se encontrar o maravilhoso frente a frente – e eis, pois, o meio: usemos o cérebro para suprir as deficiências da realidade. Hoje, mais do que nunca, o homem precisa de histórias encantadas”.

Seus livros ademais de entreter, alertam a humanidade para o perigo da mecanização excessiva sem a devida preocupação com a natureza. O homem inventou as máquinas e agora já está sendo substituído por elas, entretanto, seu principal, alerta é para a perda dos sentimentos, sem os quais a vida não tem sentido. Ao lermos sua obra, percebemos sua preocupação com a conduta humana. Ele aposta na felicidade do ser humano e sabe que parte dessa tarefa é responsabilidade do escritor que, com sua arte, abre a cortina da imaginação do leitor.

Jeronymo Monteiro é um confesso amante da modernidade e atento a tudo que é novidade, sem deixar, entretanto de se preocupar com os rumos do avanço tecnológico e o destino da humanidade diante dessas inovações “creio que o homem, quanto mais se preocupa com o futuro mais está subindo na escala da perfeição. (…) o homem vai se aperfeiçoando no seu juízo geral sobre o mundo, aprendendo a prever, ele acabará por profetizar com segurança”.

Mas não se fixou na ficção científica o espírito inquieto do criador de Dick Peter. Antes disso, atraiu-o a Literatura Infantil, e para as crianças escreveu livros como O Homem da Perna Só (1943), O Palácio Subterrâneo das Antilhas (1943), Viagem ao País dos Sonhos (1949), cujas edições sucederam-se umas após outras. Sua produção destinada às crianças é anterior à criação de Dick Peter, e sintonizado com sua época, produziu contos maravilhosos (onde o Real e Fantasia se misturam, através do Sonho ou de viagens a mundos encantados); travessuras ou peraltices das crianças no dia-a-dia; a humanização de bonecos; histórias de animais falantes; histórias de fundo folclórico; aventuras com piratas, tesouros enterrados; aventuras de mistério, onde se faz presente a Segunda Guerra, que assolava na Europa.

Em 1956, publicou Curumi, o Menino Selvagem, cujo valor reside na apropriação da realidade do indígena brasileiro, que perde suas terras para o branco, e tem essa situação transformada em uma novela de aventuras de cunho histórico. Foi uma das primeiras a utilizar como matéria de ficção para o jovem leitor, a dramática situação do indígena brasileiro, acossado em suas terras, pelos brancos invasores. Ele revela a necessidade de conscientização relativa às injustiças sociais sofridas pelos indígenas. A imagem do índio apresentada nesta obra. invertendo o estereótipo do período, é apresentada de uma forma totalmente diferente do que se tinha até então.

Com bastante humor, ironia e grande poder hipnótico suas histórias vão além da simples diversão e servem também de veículo para a divulgação de suas ideias humanistas e do sonho utópico de paz e respeito entre os homens, alertando a humanidade para o perigo da mecanização excessiva sem a devida preocupação com a natureza.

Segundo as professoras Marisa Lajolo e Regina Zilberman, respeitando o cânone do livro de aventuras, “Jeronymo Monteiro não perde de vista dois aspectos: adota uma postura crítica em relação às suas personagens, evitando idealiza-las; e enraíza o tema, frequentemente veiculado através da literatura de massas e de outros meios de comunicação de procedência internacional, a um ambiente brasileiro, tanto por integrá-lo a uma vertente em que a Amazônia é objeto de uma representação mítica, como por evitar o ufanismo que pode revestir e camuflar o material literário estrangeiro”.

Um escritor deste nível, capaz de enxergar o mundo e pinçar nos seus movimentos a complexidade dos seres que o habitam, por certo, não poderia ficar muito mais tempo empoeirado nos sebos ou esquecido nas amareladas páginas dos jornais e revistas. Por isso, dedicamos esse espaço para aqueles que querem  conhecer sua obra e sua vida.

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Publicado em 7 de junho de 2015 por em Sem categoria.

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